O golden circle da IA nas startups
Há 15 anos fomos apresentados ao Golden Circle, uma provocação que mudou muito do que entendemos como estratégia nos negócios digitais. O que podemos tirar disso hoje, em um mercado cercado por IA?
O Golden Circle de Simon Sinek marcou uma geração de fundadoras(es).
O “comece pelo porquê” ajudou empresas a saírem da guerra de features para conquistar relevância com proposta de valor clara.
Quinze anos depois, estamos diante de outro divisor de águas: a inteligência artificial.
Ela não é mais um “extra” na estratégia. É parte da estrutura que define como startups nascem, crescem e se adaptam. A pergunta agora não é se sua startup usa IA, mas como ela integra IA à essência do negócio.
Essa reflexão voltou à minha cabeça quando assisti à conversa entre Reid Hoffman (fundador do LinkedIn) e Simon Sinek, no aniversário de 15 anos do conceito. Enquanto ouvia, comecei a rabiscar conexões entre o Golden Circle e a forma como vejo startups acertando (ou errando feio) na adoção de IA.
O que percebi foi simples e ao mesmo tempo provocador: talvez estejamos prontos para um Golden Circle 2.0, redesenhado para a era da IA.
Hoje quero te apresentar essa visão e ouvir a sua.
Vai que estamos mapeando algo realmente grande.
📚 TD;DR
O Golden Circle original ajudou empresas a colocar o “porquê” no centro da estratégia.
Com a IA, precisamos de uma nova leitura: não basta perguntar “o que” ou “como”, é preciso começar pelo “para quê” a IA existe no core do negócio.
Perspectiva 1: IA como incremento superficial, guiada pela moda e sem impacto estratégico real.
Perspectiva 2: IA como pilar do core business, integrada desde a concepção da proposta de valor até o tool kit que sustenta o crescimento.
O novo círculo coloca a IA como terceira dimensão entre produto e mercado, criando um caminho para um futuro conceito de AI-product-market fit.
A kamelo está no ar desde 2021 construindo uma base sólida de informações para a jornada de criação e desenvolvimento de startups. Posso dizer, sem medo, que criamos o melhor tool kit para fundadoras(es) de startups.
Espero que você se junte as(aos) quase 3.600 assinantes que estão construindo esse movimento comigo.
Você lembra do golden circle?
Há 15 anos, Simon Sinek apresentou uma provocação simples (que se mostrou poderosa) para explicar por que algumas empresas conquistam lealdade e crescem rápido, enquanto outras ficam presas na disputa de preço e funcionalidades.
A sacada era inverter a lógica: em vez de começar pelo o que você vende, ou como entrega, comece pelo porquê.
O “porquê” conecta com o que realmente importa para o cliente e torna a venda quase inevitável.
Nesse modelo, o produto deixa de ser o herói. O centro passa a ser a proposta de valor (e a percepção desse valor) que faz o mercado ver o negócio como essencial.
Saber por que alguém precisa do seu produto é tão ou mais importante do que o produto em si.
Parece óbvio hoje, mas naquela época foi um choque de realidade para muita gente.
E é aqui que a conversa sobre IA começa a ficar interessante…
O que é o golden circle, versão IA?
O Golden Circle de Simon Sinek parte do porquê, passa pelo como e chega ao o quê. Essa ordem ajudou empresas a colocar propósito no centro e produtos como consequência.
Mas a inteligência artificial exige um ajuste nessa lógica.
A pergunta central agora não é “o que” ou “como” usar IA, mas para quê a IA existe no core do negócio.
O problema é que muitas empresas não começam por aí.
Lembra do Rabbit R1?
Era vendido como o “primeiro dispositivo AI-first” para substituir smartphones com um sistema operacional desenhado para ter IA no centro. O pitch parecia visionário… mas o mercado não comprou a ideia. Literalmente.
O R1 ilustra um erro comum: tratar a IA como um diferencial apenas tecnológico, sem integrar seu papel ao valor que o negócio entrega.
Nesse caso, a conversa foi sobre o produto, não sobre o impacto real que ele geraria na vida das pessoas. E quando a tecnologia é o ponto de partida, mas não há conexão clara com o para quê, a estratégia nasce frágil.
Por isso, no Golden Circle IA que proponho, começamos pelo FOR WHAT, a definição estratégica de qual valor a IA agrega ao negócio e ao cliente.
Só depois avançamos para o WITH WHAT, as aplicações e soluções que sustentam essa entrega. E, por fim, o WHAT IF, as hipóteses que testam até onde a IA pode levar o negócio.
Essa inversão transforma a IA de recurso plugado em pilar estratégico.
1ª perspectiva do golden circle IA
Empresas que olham para a IA como incremento tecnológico como garantia de manter o timing de mercado. “Se todo mundo está fazendo, preciso fazer também”.
Nessa perspectiva o ponto de partida se dá pela definição do uso prático da IA. Uma busca pelo que podem ser implementado mais rápido. Começamos pelo..
WHAT IF
E se colocássemos uma solução IA para executar um conjunto XPTO de atividades?
Como a aplicabilidade das soluções está cada vez mais rápida (baixo custo de aprendizado e integração), muitas empresas adotam o uso numa camada superficial do negócio.
Podemos encontrar, sem muito esforço, diversos caminhos de automação como forma de falar para o mercado “olha aqui, nós também temos IA!”, mesmo que isso não faça quase diferença alguma no que é entregue como proposta de valor.
WITH WHAT
Quais ferramentas de IA colocaremos para rodar na empresa?
Se não há um entendimento claro sobre a necessidade na adoção de ferramentas IA, não há muito o que se discutir sobre quais melhores. A estratégia é ter IA, então, o que foi mais fácil, mais barato ou chamar mais atenção direcionará a decisão.
O mercado de soluções IA tem um ritmo de crescimento maior do que tudo que foi feito até aqui. As empresas que não tem uma estratégia na adoção da ferramenta tendem a pular entre soluções, sem garantir aprendizado… sem garantir algum resultado!
Imagine a cada mudança no ChatGPT ou a cada surgimento de nova solução IA sua primeira reação seja mudar o que está em uso? Você não terá um dia de paz.
FOR WHAT
Para que mesmo precisamos usar IA?
Automatizar alguma etapa do nosso processo de serviço tá de bom tamanho?
Nessa primeira perspectiva, o uso de IA não vai muito além dessa camada tecnológica superficial. O uso foco no operacional de baixa complexidade, o que reduz o custo aqui e ali, mas que não vira a chave para uma maior taxa de crescimento.
A IA (qualquer que seja) como simples produto de tecnologia não tem impacto significativo nas estratégias que direcionam o futuro do negócio. Uma perspectiva que se contenta com o que é cômodo e fácil.
O que podemos esperar de quem adota esse caminho para ter IA como parte do negócio? Um ambiente caótico, pautado pela busca “do que está na moda”, mesmo antes de alcançar resultados reais.
Eu e Bruno Moura estamos com uma newsletter focada nos aspectos da IA no mundo e nos negócios. Vale a pena conhecer e assinara a Prompt:
2ª perspectiva do golden circle IA
As soluções IA não devem ser encaradas meramente pela aplicabilidade tecnológica, estamos falando de um movimento que vai mudar os conceitos estratégicos na criação e desenvolvimento dos negócio a partir das integrações funcionais.
Nessa perspectiva quebramos (pela primeira vez) o modelo de desenvolvimento de startups, incluindo o conceito de jornada. Isso não está acontecendo por incremento tecnológico, mas pela forma que as soluções IA impactam a forma que construímos as estratégias.
Por isso que devemos começar pelo core…
FOR WHAT
Como você define o negócio a partir do impacto da IA?
Nesse caso não estamos falando de uma ferramenta A ou B. A IA pensada a partir da engenharia de contexto como disciplina estratégica que redefine o que seu negócio precisa coletar, como precisa processar e como entrega valor.
Entender para que IA será aplicada ao negócio parte da essência e não das ferramentas. Os pilares de negócio precisam nascer com IA. Dessa base desenvolveremos estratégias que direcionem o negócio pelas janelas de oportunidade do mercado.
Começar pelo FOR WHAT é ter na base conceitual do negócio uma proposta de valor cada vez mais integrada com as demandas de mercado e sustentada pelo impacto da IA. É ter IA como parte do core business, um pilar e não uma tecnologia.
O que mais faz parte do core business das startups que começam pelo FOR WHAT?
Oportunidade de mercado
Proposta de valor
Perfil ideal de cliente (ICP)
Estratégias de crescimento
Roadmap de produto
IA
Se a IA, como elemento estratégico, está na identidade da startup, precisamos entender como torná-la funcional. Então que IA usar?
WITH WHAT
Se IA é core, quais aplicações serão mais efetivas hoje?
A IA enquanto função precisa responder a demanda atual do negócio. A medida que a startup se desenvolve, o uso das soluções IA mudam (ou se adaptam). O que não muda é o foco: Ter a IA como acelerador do posicionamento estratégico do negócio no mercado.
Com alta diversidade de soluções disponíveis não podemos perder o foco sobre os objetivos estratégicos do negócio. Se soubermos qual próximo passo teremos à disposição um conjunto de aplicações IA para acelerar resultados no curto e médio prazos.
Do entendimento profundo sobre core business construiremos nosso AI tool kit com as soluções úteis hoje. Vale reforçar que: Soluções não são Produtos! Para cada conjunto de demandas buscamos soluções efetivas, entregue por diferentes produtos.
Para selecionar ferramentas de IA é preciso entender o momento da startup e quais seus próximos desafios a serem conquistados. A escolha se dá pelo que tem maior capacidade de acelerar os resultados, sem perder foco e qualidade.
Com um tool kit dinâmico, os resultados e aprendizados criarão nova hipóteses, garantindo contínuo alinhamento com as mudanças do mercado. Dessa rotina em busca e manutenção do product-market fit (PMF) temos melhoria contínua…
WHAT IF
E se outras aplicações de IA fossem utilizadas, para onde o negócio iria?
Parte fundamental dessa mudança conceitual sobre o uso da IA no core está no contínuo desconforto sobre as possibilidades de crescimento ao longo do tempo.
Com a IA na essência os negócios são imersos em três dimensões:
As dinâmicas naturais do mercado;
A capacidade de execução do time;
Evolução da IA como core.
Essa busca contínua sobre o que precisa ser feito para dar o próximo passo antes era definida pelo alinhamento entre as dinâmicas do mercado e a capacidade de execução. Agora essa relação ganha uma nova camada, onde a capacidade de execução se torna o ponto de equilíbrio entre as dinâmicas do mercado e a evolução da IA.
Se na 1ª percepção o negócio se torna refém da tecnologia, aqui a evolução da IA só será efetiva no negócio quando associada às dinâmicas do mercado e à capacidade de execução do time.
Começar pelo FOR WHAT permite ter a IA como algo que vai além de uma stack de desenvolvimento. Minha provocação é que a IA seja elemento estratégico para construção de negócios que consigam entregar valor contínuo e adaptável ao mercado.
Percebe a sutileza nisso?
Não encare IA como elemento tecnológico, mas como a 3ª (e nova) dimensão da relação entre produto e mercado. Isso abre caminho para novos conceitos de startup e dos marcos chave da jornada como o PMF que, no futuro, possa ser chamada de AI-product-market fit.
No fim, o Golden Circle IA não é só uma adaptação de um modelo famoso. É um convite para repensar como a inteligência artificial pode sustentar a essência de um negócio, e não apenas ornamentá-la.
A diferença entre startups que surfam a onda e startups que criam o próximo oceano azul está na clareza do para quê.
Quando a IA é pilar estratégico, ela deixa de ser “mais uma tecnologia” e passa a ser a estrutura que conecta o mercado, o time e a evolução contínua do produto. É essa integração que cria negócios adaptáveis, com propostas de valor que se fortalecem a cada ciclo de mudança.
Se essa visão fez sentido para você, é porque estamos falando da mesma coisa: construir startups que não apenas acompanham o futuro, mas o definem.
E é exatamente esse o tipo de conversa que acontece toda semana na Kamelo.
— Luiz






