Esse papo com Fred Amaral foi gravado em Junho de 2025, antes do anúncio nessa última rodada de investimento.
Olá, sou o Luiz. Com a venda da minha startup tenho atuado como advisor, apoiando founders na jornada de amadurecimento dos negócios. A kamelo é o espaço onde compartilho aprendizados (e práticas) do meu dia a dia, tudo focado na consolidação das startups no mercado. O conteúdo é autoral e aberto à colaboração, me chame aqui ou pelo LinkedIn.
Existe uma transição que quase toda fintech bem sucedida vai encarar cedo ou tarde:
Nascer leve, provavelmente com um BaaS. Valida produto, volume, operação. E aí, quando a coisa fica séria, o “quintal” deixa de ser de terceiros. Você vira instituição regulada, com obrigações, reports, auditoria, contabilidade, governança e uma pilha de integrações que não cabem mais em um emaranhado de módulos.
Na minha conversa com Fred Amaral, fundador e CEO da Lerian, entramos nesse ponto: o que muda quando a fintech amadurece e por que a infraestrutura que te trouxe até aqui pode não ser a que te leva ao longo prazo.
Quem é o Fred?
A história do Fred tem um detalhe que explica muito do jeito que ele pensa produto e mercado.
Ele começou como o “clichê do dev”: programando desde criança. Mas em 2005 ele se encantou pelo mercado de capitais e fez uma guinada improvável: largou Engenharia da Computação em Goiás e veio para São Paulo estudar Economia.
O resultado foi uma década no core do mercado financeiro, fazendo M&A, IPO, follow-on e deals de dívida, passando por banco de investimento e advisory. Isso molda repertório. Você passa a enxergar empresa como estrutura de incentivos, risco, governança e alocação de capital. E isso aparece o tempo todo quando ele fala de software financeiro.
Em 2016, ele volta para tecnologia de forma bem pragmática: primeiro em um cliente, depois no Uber, onde liderou projetos de BizDev e CorpDev. E foi lá que uma tese ganha corpo: “construir banco para motoristas” sem virar uma empresa regulada. O problema era custo, escala e infraestrutura. E naquela época, ainda era “pré banking fintech” no Brasil.
O que é a Lerian?
A Lerian é uma resposta para a segunda fase das fintechs.
A primeira fase foi o boom de “viabilizar fintech”. BaaS e plataformas de base ajudaram a criar mercado. Só que agora muitas dessas fintechs estão amadurecendo e virando reguladas: instituição de pagamento, SCD, financeira, e por aí vai.
E nesse momento, a exigência muda:
você ainda precisa de velocidade e flexibilidade para construir
mas agora precisa operar um sistema que é seu
e sustentar isso por muito tempo, sem conflito de interesse e sem ficar refém de um labirinto de módulos
A proposta da Lerian é construir um “sistema operacional” financeiro, o core banking, com componentes substanciais em open source para dar transparência, auditabilidade e capacidade de evolução por quem usa.
E aqui tem um ponto importante: o open source não é o “truque de marketing”. É a forma de remover fricção e alinhar incentivos em um software que é crítico demais para ser uma caixa preta.
O desafio real do negócio
O que me marcou na conversa é que o Fred não descreve o maior desafio como “convencer que open source funciona”.
Na prática, em fintechs, o time de tecnologia já vive open source. O debate difícil é outro: como vender uma nova forma de core banking para uma cabeça treinada no modelo antigo.
O core tradicional é “módulos” e mais módulos, integrações customizadas, e aquela sensação de que todo mundo já sofreu com isso alguma vez.
A Lerian tenta um caminho mais moderno: modelagem de domínio. Em vez de prometer “módulo regulatório” ou “módulo contábil”, eles constroem uma plataforma de extração e digestão de dados que gera outputs diferentes (regulatório, fiscal, contábil) a partir do mesmo motor.
Para quem compra o “módulo pronto”, isso soa abstrato. Para quem entende arquitetura, isso é libertador.
Então o problema vira comunicação e venda complexa: fazer a ponte entre uma oferta de plataforma e o que o decisor espera ouvir. E aqui entra um ponto que serve para qualquer startup B2B: o champion interno.
Quando o time técnico do cliente defende sua solução, você não está “tentando convencer”. Você está sendo validado por quem tem credibilidade interna.
Investimento para acelerar estratégias
A história de captação do Fred também é uma aula de timing e narrativa.
Em 2017, ele tentou captar e não conseguiu. Os VCs o viam como “banker de terno”, não como founder de tecnologia. O caminho que surgiu foi levar a tese para uma empresa com bolso e montar o que viria a ser a Dock com autonomia, dentro da Conductor.
Na Lerian, a história muda. Eles captaram por volta de setembro ou outubro do ano passado, quase R$ 20 milhões, ainda como preseed, antes de receita e antes de produto estar amplamente na rua.
O que mudou com o dinheiro não foi “contratar 30 pessoas e fazer barulho”. Foi acelerar canais de monetização.
O Fred explica três linhas que fazem sentido para open source:
suporte e criticidade (o telefone vermelho 24/7)
plugins pagos por assinatura (add-ons específicos fora do “core do core”)
uma futura camada SaaS de hosting, se o mercado pedir
E tem uma lição que eu assino embaixo: captação precisa acelerar estratégia, não substituir estratégia. Dinheiro compra tempo e velocidade de execução. Não compra maturidade.
Founder mode como escolha consciente
No final, eu puxei o papel do CEO. E a resposta do Fred é rara porque é honesta.
Ele descreve um estilo de gestão com alta autonomia, quase zero micromanagement, mas entrando fundo quando algo realmente importa. Ele trabalha por restrições e guardrails, mais do que por planos de 6 a 12 meses. A visão existe, de 10 a 20 anos. O caminho é descoberto no terreno.
E talvez o ponto mais forte: ele reconhece que existe um tipo de CEO para cada fase. Ele não romantiza “crescer até mil pessoas” se isso o afasta do que ele sabe fazer melhor. Isso não é fraqueza. É governança pessoal.
Se você é founder, a pergunta que fica é:
quando sua startup crescer, a arquitetura e o modelo de parceria se sustentam longo prazo… ou você vai tentar escalar em cima de um emaranhado que só funciona até a próxima diligência?
— Luiz.












