Olá, sou o Luiz. Vendi minha startup e desde então atuo como advisor de founders que estão amadurecendo seus negócios. Sou o criador da Konekto, empresa de advisory focada na consolidação de startups no mercado.
A Kamelo é o espaço onde publico o que aprendo no advisory, práticas, diagnósticos e referências que uso diretamente com as empresas que acompanho. Tudo que sai aqui nasce do mesmo método que aplico no dia a dia com os founders.
Se quiser entender como isso se aplica ao seu negócio, o diagnóstico gratuito está em konekto.cc. Me chame aqui ou pelo LinkedIn.
Existe uma história padrão sobre como se constrói startup de tecnologia no Brasil: capta seed, contrata, queima caixa, capta Series A. Quem foge desse roteiro vira exceção ou ainda não chegou lá.
Lucas Fernandes, co-founder da AutoU, escolheu não estar nesse roteiro. E os números não cabem na narrativa de quem “ficou para trás”: R$4,2 milhões de receita em 2025, crescimento de 147%, 45 funcionários, 250 projetos entregues e clientes como Stellantis, B3, Nestlé, L’Oréal, Saint-Gobain, Jaguar e Prudential sem nunca ter captado um real.
Nesse Papo de Founder a conversa passou pelo ponto mais desconfortável pra quem está empreendendo: você precisa mesmo levantar dinheiro, ou só está repetindo um manual que pode não servir pro seu caso?
A trajetória que forma um founder antes da empresa existir
Lucas Fernandes começou a programar aos 14 anos rodando um servidor pago de Minecraft. Aos 16, ajudava o pai a vender carros usando Google Ads numa época em que R$100 de mídia ainda geravam cliente bom. Veio de família de comerciantes (não de empresários) e cresceu com a obsessão de subir um andar: sair da camada do “ganha bem” pra entrar na camada de quem constrói algo que vale por si.
Estudou Administração na UFRJ, passou pela área digital de uma seguradora aos 19, onde automatizou em Python um processo de cinco horas por dia da equipe e migrou pra consultoria. Nielsen, depois Elo Group. Foi na Elo, em 2018, que conheceu Eduardo Julianelli, hoje co-CEO da AutoU. A Elo faturava R$50 milhões e operava com cara de startup grande. Vendo aquela máquina por dentro, ficou a pulga: dá pra construir algo desse porte.
A pandemia foi o gatilho. Voltando de uma viagem de esqui na França em fevereiro de 2020, Lucas virou “o moleque que trouxe a Covid pro Brasil” e foi mandado de volta ao Rio antes do lockdown. Foi no isolamento, programando o site às 3h da manhã, que a AutoU nasceu.
A posição que ninguém estava ocupando
A primeira venda foi simbólica: uma automação para a L’Oréal por R$600, que virou um app de gestão de treinamentos por R$6 mil, preço promocional, como Lucas admite. Tinha bagagem pra cobrar dez vezes mais, mas precisava entrar no jogo. O app virou o Connecta, ganhou prêmio de projeto mais expressivo da L’Oréal Brasil e segue em uso por mais de 2 mil colaboradores. Foi a referência que abriu o resto do mercado.
A tese da AutoU se consolidou ali: existe um espaço entre o SaaS de prateleira (que não customiza) e a consultoria tradicional (que não entrega tecnologia). Empresas grandes precisam dos dois. A AutoU ocupa esse meio do caminho. Faz sentido pra cliente com orçamento de R$200 a 500 mil por projeto, e não pra quem tem R$20 mil. É um nicho deliberadamente caro, fragmentado e fora do alcance de SaaS genérico.
Em 2025, depois do VivaTec em Paris, Lucas e Eduardo voltaram com a leitura clara: a AutoU precisava se reposicionar como AI-first. Não era a tecnologia (já usavam IA há anos) era a narrativa entregue ao mercado. A virada deu o salto de 147%.
A escolha consciente pelo bootstrap
Aqui mora o ponto que mais incomoda founders. A AutoU não captou porque não conseguiu, Lucas tem rejeição ativa ao modelo. Empreender com capital de VC, na visão dele, é “jogar videogame com cheat ativado”: se você morre, tem vida extra. Bootstrap não tem vida extra. Cada real que sai precisa voltar.
Essa restrição cria cultura específica. Foco em geração de caixa. Cliente em primeiro lugar. Disciplina financeira que muitas vezes não se desenvolve quando há dinheiro de investidor cobrindo a ineficiência.
O custo é real: a AutoU compete com empresas capitalizadas em US$100 milhões e joga com salário menor e proposta de carreira mais clara. A contrapartida é que Lucas não tem cap table pra servir, retorno de investidor pra entregar, nem pressão pra crescer com esteroide. Faturar R$20 milhões em dez anos com margem de 30 a 40% pode ser uma das melhores empresas pra se ter no Brasil.
O papel do founder muda quando a empresa cresce
A maior lição de Lucas em cinco anos de AutoU não é técnica, é comportamental. Pra liderar 45 pessoas, teve que matar o “deixa que eu faço”. Em 2023 e 2024, esse instinto virou gargalo: a empresa parou de crescer porque tudo subia até ele.
Citando Daniel Martel: “80% feito por outras pessoas é 100% maravilhoso.” McDonald’s não tem o melhor hambúrguer do mundo, mas escala. Empresa cresce removendo gargalo, não buscando perfeição.
O recado pra quem está empreendendo: o trabalho do founder, à medida que a empresa cresce, é deixar de ser quem faz e virar quem constrói o sistema que faz. Bootstrap acelera essa lição porque o gargalo aparece mais rápido, não tem investidor cobrindo falha de processo.
A AutoU mira dobrar a receita em 2026, chegando a R$8 milhões, e iniciar expansão internacional pelos clientes multinacionais que já atende. Bootstrap segue como escolha. Pra quem empreende no Brasil, vale guardar: nem todo caminho passa por captar.
— Luiz











